Numa madrugada de agosto de 2018 comecei a investigar mais em quem votarei para cada cargo. Comecei, obviamente, a ler sobre as pesquisas eleitorais. Nunca coordenei pesquisas eleitorais e fui surpreendida diversas vezes. Fiquei curiosa para entrar e degustar cada questionário. Coisas de pesquisador raiz. Ao final, sinto que fiquei com mais dúvidas.

Para quem trabalha em pesquisa é quase um mantra: quando um cliente coloca no briefing que quer saber o market share, trememos primeiro porque está na cara que não conhece nada de pesquisa e depois, calmamente temos que explicar que pesquisa primária nenhuma tem esse poder. Daí você começa a ler reportagens e candidatos falando dos números como se fosse o prognóstico.

Ao meu entender, a pesquisa eleitoral, assim como as pesquisas para marketing de produtos e serviços, são de opinião pública, não seriam o prognóstico. Seguiriam as mesmas metodologias. Levariam em consideração determinados parâmetros como sexo, faixa etária, escolaridade, nível econômico, posição geográfica para o delineamento amostral. Até aí me parece que tudo bem.

Entrei no site do TSE para ver algumas. Queria saber quem pediu a pesquisa, quem fez a pesquisa, qual a amostra, onde foi feita (nível SP ou Brasil), em que municípios, qual o critério para escolha daqueles municípios especificamente.

Enfim, levantei uns pontos que poderiam aumentar o erro não amostral e que nunca são revelados. Este é um dos perigos! Saber como o questionário foi aplicado, verificado e interpretado. Investiguei como o questionário foi elaborado, qual a ordem das questões, houve pergunta espontânea ou foi tudo estimulado, houve rodízio ou era aleatório ou nem tinha instrução, nas perguntas estimuladas a lista foi lida ou não, qual o tamanho e duração que eu estimaria de cada questionário e em que local do questionário estavam especificamente as questões relacionadas à preferência/ escolha, foi presencial, telefônica, online?

Comecei a achar umas coisas rs, fiquei mais instigada, não conseguia parar. Comecei a ler os resultados de pesquisas lá da eleição passada, quem tinha solicitado, para quem e o que foi divulgado na época, quem estava sendo favorecido pela interpretação daquele veículo de comunicação? Doido! Valeria um meetup só de discussão de cases! Comecei a ver que determinados solicitantes contrataram empresa de quem é colunista do próprio jornal. Será que só eu acho estranho? Vi outra pesquisa que uma Confederação Nacional de um segmento solicitou, ué, mas o que ela tem a ver, por que ela solicitou e que resultado deu?

Quando abri alguns questionários, me senti surpresa! Não deveria haver alguma metodologia estabelecida para fazer essas perguntas? Por que em pesquisas de marketing de produtos e serviços temos que perguntar primeiro que marcas já viu ou ouviu falar (awareness espontâneo), depois listar (ler) as marcas (awareness estimulado), depois perguntar qual a preferida, depois perguntar qual rejeita e na pesquisa eleitoral cada um faz de um jeito. Uns seguem esse modelo e outros fazem o seguinte: não perguntam o awareness espontâneo e pulam direto ao estimulado ou não perguntam pela preferida (perguntam qual a preferida ou tem afinidade, tudo na mesma questãooooo!!!!). Outros incluem as perguntas de eleição assim, no meio de um questionário com temas variados, com muitaaaaaas questões, bem cansativo. Outras, pasmem, lêem a lista começando sempre por um candidato (nas perguntas de cenários).

Agora imagine se a pesquisa é para uma marca de refrigerantes e eu sempre leio aquela marca primeiro. Você acha que aquela marca terá um índice maior de preferência? Kkkk

Outro ponto: já imaginou se eu faço a pesquisa face a face, olho no olho e posso mostrar o disco com a lista de candidatos e ler. Você acha que seria a mesma coisa que eu fazer essa pesquisa telefônica e ler uns 15 nomes?

Se eu tenho um questionário que duraria 15 minutos vs um que duraria 1h00 fácil, e no meio tivesse uma bateria de cenários pré-estabelecidos, quão acurado pareceria o resultado?

A questão dos municípios…me ocorreu o seguinte. Dependendo quem fez a pesquisa, e nós pesquisadores sabemos quem faz direitinho, costuma seguir as normas etc e quem nunca ouvimos falar no nosso meio rs, como esses municípios são escolhidos, sorteados. Se eu pudesse escolher municípios com algum critério x, isso poderia impactar nos resultados da pesquisa ou não?

A leitura dos resultados é um capítulo à parte. Cada um tem lido como quer. Como foram feitas as ponderações? A leitura é feita de maneira diferente por diferentes veículos com base nos resultados da mesma pesquisa. Que interpretações são dadas pelos veículos de comunicação? Pesquisas feitas por instituições diferentes, em épocas diferentes, em datas específicas após determinado evento (debate, por ex.) com perguntas feitas de forma diferente e comparadas entre si por determinados veículos de comunicação. Algo que em para uma pesquisa de produtos e serviços nunca poderia ser feito e por que na eleitoral pode? Não entendi rs.

Em alguns veículos você verá assim: SAO PAULO – Começa o texto….está subentendido que a pesquisa está baseada apenas em SP, mas ninguém falou nada até o final do texto, dando a entender que poderia ser nível Brasil. Em outros, se você comparar o texto da pergunta com o texto do artigo, há uma diferença grande. Vamos usar como exemplo o refrigerante. Se eu te perguntar qual marca você prefere? E qual marca você escolhe comprar? Você acha que pode haver uma diferença entre o que você prefere e qual será sua compra final? Tudo bem reportar que % preferem ou % escolhem tal candidato? SE fosse para a marca de seu produto/ serviço / empresa, estaria também tudo bem? E por que no caso de candidatos estaria tudo bem?

Enfim, há muito a ser trocado, discutido, explicado. Às vezes chega algum whatsapp ou alguém me comenta: poxa, como acreditar nas pesquisas? Eu diria o seguinte: entre no site do TSE, leia os artigos, investigue. Investigue como é cada instituto, mas investigue também como cada veículo de comunicação tem interpretado cada pesquisa.

Há muitos institutos bons e idôneos e outros que ainda estão sob minha observação. Termino com a sensação de querer entender muito mais sobre pesquisa eleitoral para sanar pelo menos as minhas dúvidas. Que bom seria termos que cumprir minimamente alguns critérios na elaboração e aplicação. Que bom seria ter acesso ao banco de dados para saber realmente quais foram as respostas e conseguir fazer os cruzamentos. Seria o delírio para o pesquisador! Seria transparência total!

No comments yet.

Leave a Reply